A taxa de homicídios de crianças e adolescentes aumentou 64% em dez anos no Espírito Santo. Se em 2000 o Estado ocupava o 5º lugar no ranking da morte violenta entre população de zero a 19 anos, em 2010, passou para o 2º lugar e agora perde apenas para Alagoas. Os dados são do Instituto Sangari, que divulgou ontem o “Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil”.
Em 2010, 376 crianças e adolescentes morreram no Estado, o que corresponde a uma taxa de 33,8 mortes para cada 100 mil crianças e adolescentes. Em Alagoas, a taxa foi de 34,8, e a média brasileira é de 13,8. Entre os Estados que apresentaram as maiores reduções no período estão São Paulo, que saiu da 4ª para a 26ª posição, e Roraima, que deixou o 7º lugar para ocupar o 22º.
Segundo o sociólogo e responsável pelo estudo, Julio Jacobo Waiselfisz, o Espírito Santo apresenta um desenvolvimento problemático nas estatísticas. “Em 1998, quando elaboramos o primeiro relatório, a região metropolitana de Vitória aparecia em 1º lugar nas estatísticas. E essa situação não mudou muito desde então. Penso que há uma cultura da violência, que é comum na América Latina, em geral”, diz.
Tráfico
Jacobo critica as explicações de governos e municípios de que os homicídios estejam sempre relacionados ao tráfico de drogas. “Esse é um mecanismo de autojustificativa, que tira a responsabilidade do Estado por aquilo que ele não consegue resolver. As drogas são um problema, mas apontar sempre para elas mascara os outros motivos. A violência também pode estar na família”, aponta.
Ainda segundo o Estudo, Vitória é a 2ª capital com a maior taxa de homicídios: são 76,8 mortes para cada 100 mil crianças e adolescentes. Apenas Maceió, a capital de Alagoas, tem índice superior: 79,8.
Vitória
O secretário municipal de Segurança Urbana de Vitória, Alcemir Pantaleão, porém, contesta os dados. Segundo ele, as informações utilizadas para a elaboração do mapa leva em conta o local de óbito do paciente e não o local onde a violência ocorreu.
“Por ter uma rede ampla de hospitais, as capitais, de um modo geral, aparecem em 1º lugar no número de morte nos seus Estados”, explica.
Para exemplificar, ele explica que das 219 mortes atribuídas a Vitória em 2010, considerando toda a população, 76 foram resultado de violência cometida em outros municípios. “São pessoas que morrem na nossa rede de saúde, mas apenas porque foram atendidas aqui”, reforça.
Homicídios
Brasil. A taxa de homicídio entre crianças e adolescentes, no Brasil, subiu de 11,9 para 13,8 entre 2000 e 2010, para cada grupo de 100 mil crianças e adolescentes
As meninas representam 10% do total
O país ocupa a 4ª posição no mundo, só superada por El Salvador, Venezuela e Trinidad e Tobago
Estado. O Espírito Santo é o 2º Estado com a maior taxa de homicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes. Só perde para Alagoas, onde a taxa é de 34,8 mortes. Aqui, a taxa é de 33,8
No Estado, foram 376 mortes em 2010, um aumento de 49,8% em relação a 2000, quando 251 crianças e adolescentes foram mortas
Em 2000, a taxa era de 20,6, e o Estado ocupava a 5ª posição
Vitória. Levando em consideração apenas as capitais, Vitória tem uma taxa de 76,8 mortes por 100 mil. É a segunda maior do país, perdendo apenas para Maceió, capital de Alagoas, com taxa de 79,8
Considerando os municípios do país com mais de 20 mil crianças, Vitória aparece na
6ª posição; e Serra, na 8ª. Em seguida aparecem São Mateus (15ª), Viana (19ª), Vila Velha (20ª), Cariacica (42ª) e Linhares (49ª)
Violência
Brasil. O levantamento também contabilizou casos de violência registrados a partir de atendimentos no SUS
As meninas respondem por 60,3% do total de vítimas no Brasil. E 63,1% dos casos acontecem dentro de casa
Com relação ao tipo de violência, 40,5% são classificadas como física; 19,9% como sexual; 17% violência moral; e 15,8% correspondem a abandono
Os pais (pai ou mãe) são os principais responsáveis pelos casos de violência notificados, concentrando 39,1% dos atendimentos em 2011
Dos casos de estupro, 10,2% dos agressores são os próprios pais; e outros 10,3%, o padastro. Além disso, em 28,5% dos casos, o agressor é um amigo ou conhecido da vítima
Os municípios do Estado não aparecem na lista dos maiores registros de violência no país
Governo: homicídios vêm caindo
O subsecretário de Integração Institucional da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), Guilherme Pacífico, explica que o número de homicídios vem caindo no Estado desde 2010 – ano do último levantamento feito pelo Mapa da Violência – e diz que, nos próximos dez anos, a tendência é de que o Espírito Santo esteja muito longe do 2º lugar que ocupa nas estatísticas de mortes entre crianças e adolescentes.
Pacífico justifica a afirmação ao lembrar que, em 2011, foram registradas 137 mortes a menos que em 2010. Foram 1.708 mortes no ano passado, considerando toda a população. De acordo com o Mapa da Violência, as mortes de crianças e jovens chegaram a 376 no Estado, em 2010. “Assim como ocorreu no total de homicídios, acreditamos que aí também houve queda”, diz.
Segundo ele, nos seis primeiros meses deste ano já foi registrada uma redução de 3,6% nas mortes em relação ao mesmo período do ano passado.
A respeito das declarações do sociólogo Julio Jacobo, disse que 70% das mortes têm, sim, relação com o tráfico de drogas. “Consta nos inquéritos policiais, e é fundamental saber disso para formatar políticas públicas, como o Estado Presente. Estamos fazendo uma caçada implacável aos homicidas, também estamos qualificando os jovens e dando mais oportunidades de crescimento e educação”, garante.
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