Livro apresenta as estratégias da juventude em seis países e a implicação na vida cotidiana dessa faixa etária; obra será lançada em Montevideo, no Uruguai.

 

A Flacso Brasil lançará o livro Trajetórias/práticas juvenis em tempos de pandemia da covid-19, em Montevideo, no Uruguai, durante o V Congresso Latino-Americano e do Caribe de Ciências Sociais. A obra é organizada pelas pesquisadoras: Dra. Miriam Abramovay (Brasil); Dra. Lila Cristina Luz (Brasil); Dra. Marisa Feffermann (Brasil); Me. Veronica Cenitagoya (Chile); Dra. Ursula Zurita (México); e Dra. Ana Isabel Peñate Leiva (Cuba). O livro é uma construção coletiva de pesquisadoras vinculadas às organizações de seis países. Flacsos Brasil, Equador, México, Chile, Argentina e Cuba; Instituto de Saúde do Governo de São Paulo; Núcleo de Pesquisas sobre Crianças, Adolescentes e Jovens da Universidade Federal do Piauí (NUPEC/UFPI); e Centro Latino-americano sobre Juventude (CELAJU).

A Covid-19 gerou mudanças nas trajetórias de vida dos jovens, forçando-os a redesenhar suas experiências e práticas. Preocupada em conhecer as realidades das juventudes latino-americanas e caribenhas, a Flacso Brasil liderou a pesquisa com o objetivo de analisar as trajetórias dos jovens e de conhecer os impactos da COVID-19 nas condições de distanciamento, trabalho, educação, direito à cidade, participação social, família e emoções de 426 jovens do Brasil, Equador, México, Argentina, Chile e Cuba. Os autores entrevistaram jovens entre 15 e 29 anos de diferentes classes sociais, identidades, sexualidades, escolaridade, ocupação, entre outros.

O livro está dividido em cinco partes. Na primeira parte, as autoras avaliam os impactos da covid-19 na vida escolar, destacamos aqueles relacionados à educação; na segunda parte, analisam a vida laboral; na terceira parte, as autoras tratam do tema família; na quarta parte, as cidades são analisadas como contextos de expressões do aprofundamento das desigualdades; na parte sobre emoções problematizam a preocupação global com as emoções de uma perspectiva individual e vinculada ao bem-estar mental.

As condições e conclusões da pesquisa

A investigação foi iniciada em abril de 2020, durante os dois anos de confinamento causada pela COVID-19. O acesso aos jovens aconteceu de forma online e as entrevistas centradas nos eixos: identificação sócio-demográfica dos entrevistados; saúde: isolamento, dados sobre a Covid-19, cuidados da saúde individual e familiar (medicina e/ou religião/espiritualidade); condição em relação ao isolamento; sociabilidade/convivência; percepções, sentimentos, preocupações, problemas; atividades realizadas no período de isolamento/distanciamento social; violências e futuro.

Durante a produção da pesquisa, as autoras da obra evidenciaram alterações causadas pelo isolamento social que afetou a condição juvenil. O confinamento modificou as práticas cotidianas e subjetividades dos jovens. A pesquisa constatou que o discurso oficial de menor vulnerabilidade das juventudes serviu para ocultar problemas já enfrentados anteriormente, relacionados ao dia a dia da juventude. Com a pandemia e o contexto de extrema desigualdade social, os jovens foram os principais afetados.

Foram diversas as conclusões da investigação. Na educação, trabalho e interações sociais: o ensino remoto evidenciou desafios nunca antes enfrentados e o problema da falta de conectividade fez com que não tivessem possibilidade de acompanhar as aulas. Sem poder frequentar a escola e sem trabalho, a maioria dos jovens tiveram o tempo/espaço cotidiano comprimidos ao espaço privado. Todavia, para aqueles jovens que não deixaram de trabalhar, resultaram as piores alternativas de atividade laboral. Ao mesmo tempo, os jovens deixaram de usufruir da companhia de seus colegas e amigos, em interações cotidianas prioritárias atinentes à condição juvenil.

No tema cidades, o estudo evidenciou que a pandemia aprofundou desigualdades e iniquidades entre as famílias, e dentro delas, atravessadas por dimensões como: classe social, etnia, cor da pele, sexo, idade, território, profissão, entre outras. Apesar do impacto negativo inquestionável da pandemia, alguns jovens perceberam mudanças em sua concepção do mundo; o interesse pelo bem-estar social, familiar e individual foi despertado, e áreas da vida antes naturalizadas ou invisíveis foram valorizadas, como saúde, família, afetos, trabalho e o uso adequado do tempo.

No campo das emoções, a obra reconhece que a covid-19 é uma experiência única que coloca atores sociais, incluindo os jovens, em uma realidade permanente e incerta. Entre eles, as emoções compartilhadas fazem com que as dimensões de gênero, classe social, raça/etnia interajam em níveis simultâneos e múltiplos mostrando as diversas formas de discriminação existentes nas sociedades estudadas. Quanto ao futuro, os sonhos também foram desestabilizados, criando incertezas em relação ao seu futuro pessoal, profissional e acadêmico.

Na esfera familiar, a pandemia fez com que os jovens assumissem numerosas e novas responsabilidades em suas famílias. Além disso, foi reforçado o caráter adaptativo e resiliente de algumas famílias em situações de crise. Houve revalorização dos jovens que retornaram aos seus lares familiares, reencontros e aproximações que antes não havia. Nesta crise, viu-se que a família e os seus membros, com quem a casa é partilhada ou não, mobilizaram múltiplos recursos para garantir a continuidade dos estudos, mesmo nas condições mais difíceis. Assim, a família se mostrou uma instituição amortizadora dos riscos sociais de grande magnitude causado principalmente pela COVID-19.

Para viabilizar a divulgação e possibilitar que o conteúdo do livro chegue a um maior número de pessoas possíveis, a obra recebeu uma versão impressa e outra eletrônica. Em breve a versão impressa estará disponível na biblioteca das Flacsos e nas das demais bibliotecas das instituições acadêmicas.

 

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