Com o objetivo de apresentar os resultados do estudo regional sobre as juventudes no contexto da pandemia, o II Seminário Virtual Internacional “Trajetórias/Práticas juvenis em tempos de Covid-19 na América Latina e no Caribe” reuniu, nos dias 19 e 20 de janeiro, participantes da pesquisa coordenada pela Flacso Brasil. Um livro sobre a pesquisa tem lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano.

Em maio de 2020, a diretora da Flacso Brasil, Salete Valesan Camba, juntamente com a professora e pesquisadora Miriam Abramovay, convidam outras sedes da Flacso e instituições para realizar uma pesquisa qualitativa com jovens no contexto de pandemia, que teve início em março do mesmo ano.

As sedes da Flacso México, Cuba, Colômbia, Equador, Argentina e Chile, coordenadas pelo Brasil, aceitam o desafio, assim como a Universidade Federal do Piauí (UFPI) e o Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Entre as(os) pesquisadoras(es) dessas instituições, estabeleceu-se uma aliança que permitiu a produção de referências, a partir da perspectiva dos jovens de cada país, com o propósito de aprofundar na geração de novas e diferentes trajetórias/práticas, associadas às transformações decretadas pelos governos centrais dos países para lidar com a pandemia. 

O estudo aponta, entre outros achados, que as medidas adotadas nestes dois últimos anos vieram para aprofundar e tornar visíveis as lacunas, barreiras e desigualdades em uma região que já era desigual, os jovens não ficaram alheios a esse processo de desenvolvimento.

A lógica política e as condições estruturais sócio-históricas estão na base das dificuldades que os Estados têm encontrado para implementar medidas de prevenção que respondam às demandas sanitárias, com efeitos sistêmicos na vida humana.

Um exemplo do efeito das regulamentações preventivas adotadas pelos governos centrais na esfera privada são os confinamentos de quarentena. Estes têm repercutido na dinâmica familiar, colocando à prova a convivência dos seus membros. As lógicas relacionais que os membros das famílias possuíam antes desse momento têm sido essenciais para o enfrentamento de um cotidiano imerso em uma alta complexidade não vivenciada anteriormente.

O ambiente familiar, onde também se observam as emoções como lentes privilegiadas para distinguir as múltiplas dinâmicas do quotidiano, foi também um aspecto desenvolvido pelas equipes de pesquisa. A partir da Sociologia das Emoções, aborda-se o estudo da natureza social das emoções e o fundamento emocional das sociedades em contextos tão únicos como os que se configuraram pela pandemia da Covid-19 nos países analisados. Os resultados apresentados concentram-se no papel que as emoções desempenham na sustentação da reinterpretação e reconstrução das interações sociais face a face (nível micro), nos processos e condições que as transcendem (nível médio) e nas estruturas sociais e representações coletivas que as articulam e fazem durar (nível macro). Dado que as emoções não implicam processos ordenados, unívocos e lineares que passam pelo seu surgimento,, desenvolvimento até a sua finalização (mudança), o que se busca é destacar e examinar quais as implicações que essas mudanças e persistências causam de acordo com os contextos de uma sociedade, de uma classe, um gênero, uma raça, uma geração em que estão os jovens entrevistados no estudo.

Outro exemplo, associado às medidas de prevenção à infecção por Covid-19, é o efeito do fechamento prolongado das escolas sobre os jovens. Esta ação veio realçar a relevância destes espaços como locais de saída para jovens em condições de isolamento, raiva e cansaço. Além disso, apesar das adaptações curriculares e didáticas, evidenciam-se deficiências e fragilidades profundas que devem ser consideradas para o desenho de novas estratégias que permitam a continuidade dos processos de ensino e aprendizagem. Mas não se trata apenas de transferência de conteúdo, os processos de sociabilidade juvenil também são alterados pelo fechamento, parcial ou total, de entidades como instituições de ensino, uma vez que constituem um agente central no desenvolvimento social da juventude.

Nesta última posição está também o espaço público, especialmente a rua, concebido como construção de sentido compartilhado e geração de conhecimento para a composição dos jovens como seres sociais. Isso também foi interrompido pelo contexto de pandemia que exige ações contrárias como: confinamento, manutenção do distanciamento social, capacidade restrita para reuniões, toque de recolher, suspensão de atividades educacionais e laborais. A liberdade e a diversidade no espaço público são limitadas por imperativos de segurança sanitária e ordem social em um momento crucial no desenvolvimento da vida dos jovens.

Vemos claramente outro efeito dominó ao realizar uma análise interseccional, onde as mulheres apresentam maiores graus de vulnerabilidade nessas condições adversas. São elas que compõem as cadeias de cuidado para permitir que as jovens mães saiam de casa durante o isolamento. Essas estratégias, realizadas pelas mães (avós) têm como foco a resolução, quase exclusivamente, das tarefas domésticas. Durante a pandemia, aumentou o valor do tempo livre permitido pela horta/escola/outras instituições de bairro e municipais que libertaram as jovens mães da sobrecarga de tarefas de cuidado. Perante o encerramento parcial ou total destes apoios, o apoio familiar e de vizinhança, majoritariamente feminino, tem sido fundamental para permitir momentos de recreação e descanso.

As trajetórias de trabalho dos jovens, caracterizadas pela condição estrutural de precarização do trabalho e discriminação laboral, também associada a interseccionalidades que acentuam as condições de vulnerabilidade, têm provocado diversas reflexões, principalmente em relação às condições de insegurança geradas pela informalidade, agravada pelo aumento do desemprego. Nesse contexto de incertezas em relação ao trabalho, exacerbam-se a condição de “uberização” e alternativas como os chamados “bicos” como estratégias de sobrevivência, mesmo diante da insegurança e vulnerabilidade em relação ao trabalho e à renda. Com base nas medidas sanitárias de distanciamento social, são os jovens que asseguram a distribuição de alimentos, medicamentos e compras feitas pela internet através de aplicativos de entrega em domicílio, porém, isso não se refletiu nas condições de trabalho.

Esses são alguns dos exemplos associados aos resultados da pesquisa realizada por essas seis sedes da Flacso, que representou um desafio, pois as condições também afetaram a equipe. O trabalho qualitativo online, mantendo as considerações epistemológicas envolvidas nessa abordagem, tem sido um desafio constante. Diante disso, o exercício da vigilância epistemológica configura-se como resistência do Sul Global no estudo das “Trajetórias/Práticas Juvenis em tempos de pandemia da Covid-19”, e permite uma visão interdisciplinar e uma perspectiva que busca contemplar um “ ecologia do conhecimento” segundo a atribuição do termo por Boaventura de Sousa Santos.

Os resultados obtidos em cada uma das dimensões abordadas neste trabalho serão tratados com maior profundidade no livro, que tem publicação prevista para o primeiro semestre de 2022, com apoio da Secretaria Geral da Flacso.

Será um insumo relevante para o desenvolvimento de Políticas Públicas associadas às juventudes e seu trânsito ao longo dessa pandemia que ainda persiste, e cujos efeitos nos acompanharão por muito tempo.

Assista ao seminário:

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