A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz  (Esalq), campus da USP em Piracicaba (SP), anunciou na noite de segunda-feira (9) a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público de São Paulo (MPSP). O objetivo é apurar e receber denúncias de trotes na unidade, que nos últimos anos foi palco de violência contra os calouros. As denúncias foram feitas por alunos em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa de São Paulo, que analisa a violação dos direitos humanos em universidades brasileiras.

O acordo prevê a presença de promotores no campus já no início das aulas. Eles participarão da “Semana de Integração aos Ingressantes”, entre os dias 23 e 27 deste mês, prestando esclarecimentos e apresentando os canais de apoio à disposição dos estudantes. De acordo com a Esalq, 430 novos alunos aprovados no vestibular da Fuvest 2015 começarão o ano letivo em sete áreas. A maior parte das vagas (200) é para o curso de Engenharia Agronômica.

“A Esalq organizou uma campanha para a recepção dos ingressantes que busca apresentar os valores e as tradições que construíram a excelência dessa Escola. O trote não é um valor da nossa instituição e seremos ainda melhores sem ele”, declarou o diretor do campus, Luiz Gustavo Nussio.

Ainda de acordo com a Esalq, a programação para a primeira semana de aulas contará também com entrega de donativos, mesa redonda sobre diversidade e intolerância, clínicas esportivas, oficinas  sobre meio ambiente e apresentações sobre permanência, moradia e assitência médica, entre outros.

Denúncias
Agressões, chibatadas, cuspe na cara, envenenamento e até ações de tortura fazem parte do ritual de entrada para os alunos da Esalq. Durante os depoimentos à CPI, o estudante Felipe José Yarid afirmou que foienvenenado com um líquido agrícola que, jogado em seu corpo, tirou os movimentos e degradou a pele. Ele não conseguiu ir à faculdade por conta do efeito do veneno e trancou a matrícula durante um ano.

“O exame toxicológico apontou veneno no meu corpo. Eu não tinha movimento nenhum, não conseguia me mexer. Fui prejudicado, não conseguia fazer provas, não conseguia ir às aulas. Além disso, eu ainda fui suspenso por uma semana depois que tentei denunciar o caso para a diretoria da universidade”, afirmou Yarid durante o depoimento.

Ritual de entrada
O ritual de entrada para os alunos no campus da USP em Piracicaba (SP) também conta com abusos, agressões que resultaram em fraturas e comida estragada. Em um depoimento prestado em sigilo aos deputados, uma aluna afirmou que quase foi abusada sexualmente em um dos trotes e que já ouviu muitos casos semelhantes ao dela na universidade.

“Eu escapei por pouco, mas sei que eles dopam as pessoas e abusam sexualmente delas em repúblicas. Eu também já vi muita gente ser agredida e quebrar braços e pernas”, disse.

Outra estudante afirmou que os calouros são obrigados a comer comida estragada misturada com vômito e que não podem deixar o local enquanto não terminam. “Eles fazem uma mistura com vômito e comida podre e obrigam as pessoas a comer. Quem não come, é agredido e não pode sair do lugar”, contou.

Ao ser procurada pela reportagem da EPTV na época, a diretoria da Esalq afirmou não ter recebido nenhum relato de trote violento nos últimos quatro anos e que aguardaria o resultado da CPI para tomar alguma medida.