A mais recente versão do Mapa da Violência no Brasil, que consolida dados de 1980 a 2012 e aomesmo tempo refaz os cálculos referentes aos jovens, traça um quadro dramático do problema,principalmente quanto a essa parcela da população. Esse trabalho, que já se tornou uma referênciapara os estudiosos da questão, oferece importantes subsídios para as autoridades da área desegurança pública, tanto dos Estados como da União, em seu esforço para reduzir os índices dasvárias formas de violência, que continuam muito elevados.
O índice de mortalidade da população em geral caiu de 631 por 100 mil habitantes, em 1980, para608, em 2012, de acordo com o trabalho coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. Masesse pequeno avanço não deve ser motivo para comemoração. Primeiro, porque os númerosabsolutos são desanimadores.
Naquele período 1.202.245 pessoas foram vítimas de homicídio;1.041.335, de acidentes de trânsito; e 216.211 se suicidaram, o que dá um total de 2.459.791. Asegunda razão, não menos importante, é que a taxa de mortalidade juvenil cresceu, passando de146 por 100 mil jovens para 149.
Todos os cálculos da série histórica referentes aos jovens foram refeitos para o Mapa da Violência2014. A definição de faixa etária de juventude foi mudada. A adotada anteriormente era a dasNações Unidas, que considera como juventude a fase da vida humana que vai dos 15 anos aos 24 anos. Ela foi substituída pela que estabelece a Lei 12.852, do Estatuto da Juventude, aprovada emagosto de 2013 – de 15 a 29 anos. E, além das três causas de morte – homicídios, suicídios eacidentes de trânsito -, foi introduzido um novo item, no estudo sobre os jovens, referente aquestões de raça e de cor.
No que diz respeito aos homicídios, a diferença entre a juventude e o restante da população é muitogrande. A taxa da primeira passa de 19,6, em 1980, para 57,6 por 100 mil jovens, em 2012, umaumento de 194%. A taxa do restante da população foi de 8,5 para 18,8 por 100 mil habitantes,com crescimento de 120%. Em 2012, a taxa de homicídios de jovens é mais do que três vezes a doresto da população.
Dois outros dados completam o quadro que mostra que o problema dos jovens é especialmentegrave na situação geral da violência no País. O número de vítimas de homicídio é relativamentepequeno até os 12 anos – 85 em 2013. O número cresce rapidamente a partir dos 13 anos. O pico éatingido aos 20 anos, com 2.473 vítimas, e a partir daí cai lentamente.
Outro aspecto do problema que chama a atenção é o das causas de mortes de jovens. ObservaWaiselfisz que estudos feitos em São Paulo e no Rio de Janeiro apontam que, seis décadas atrás, asprincipais causas de mortes entre eles eram epidemias e doenças infecciosas, agora substituídas porhomicídios e acidentes de trânsito.
Com relação a estes últimos, a situação se agrava mais no começo do século. A taxa da morte dejovens cresce 27,4% entre 2000 e 2007, bem acima do índice do resto da população, de 11,1%. Isso se deve, em grande parte, à difusão do uso da motocicleta, principalmente entre os jovens, e ogrande número de acidentes com esse veículo, com destaque para as grandes cidades.
A tudo isso se deve acrescentar outro problema bem conhecido, de que não trata o Mapa – acooptação de jovens carentes pelo tráfico de drogas.
Outra contribuição do Mapa da Violência 2014 é fornecer dados sobre a já conhecida interiorizaçãoda violência, sua evolução e situação atual. Entre 1980 e 1996, o aumento dos homicídios nointerior (69,1%) ficou bem abaixo do das capitais (121%), situação que muda rapidamente entre1996 e 2003. A taxa nas capitais praticamente se estabiliza, com 0,9%, e cresce 30,4% no interior.Entre 2003 e 2012, há uma redução de 16,4% nas capitais e um aumento de 35,7% no interior.Não faltam, como se vê, informações confiáveis sobre a grave situação da violência no País, tantoem suas diversas manifestações como na indicação dos grupos mais afetados por ela. O que falta éum empenho maior dos Estados e da União para mudá-la.
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