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Essencial mesmo para o Brasil é o C, de China PDF Imprimir E-mail
 

Escrito por Clóvis Rossi em Folha de S. Paulo, em 16/04/2010 14:07

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Publicado em : Conteúdo, Artigos



Essencial mesmo para o Brasil é o C, de China

Clóvis Rossi


O fato de a cúpula do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) ter coincidido ontem em Brasília com três outras reuniões no mais alto nível serviu para demonstrar o quanto a letra C, de China, pesa muitíssimo mais para o Brasil por mais midiática que seja a sigla inventada pela Goldman Sachs para apontar os quatro países que, em tese, serão as potências mundiais a partir de 2020.

A relação com a China é tão especial que o presidente Lula e o dirigente Hu Jintao assinaram, entre uma pilha de outros atos, um PAC (Plano de Ação Conjunta, logo batizado de PAC chinês, este sem a "maternidade" de Dilma Rousseff).


São 30 páginas para o período 2010/14, destinadas a dar "uma visão integrada das relações" -a fraseologia diplomática para relacionamento muito estreito em todos os âmbitos, do econômico-comercial, sempre o mais vistoso, até o cultural, passando pelo político.


Uma pesquisa, embora sumária, nos arquivos do Itamaraty não encontrou outro acordo do gênero para um período tão longo, a não ser um programa menos ambicioso, assinado com o Reino Unido em 2001.


Brasil e China se propõem a consolidar assim a parceria estratégica que já vem de 1993 e se tornou uma expressão desgastada pela quantidade de parcerias estratégicas que cada país tem com outros.


O acordo com a China ofuscou a cúpula Brasil-Índia, a cúpula Ibas (Índia, Brasil, África do Sul) e até a dos Brics, jogada para concluir tarde da noite (21h em Brasília) e sem a participação de Hu Jintao, que regressou a seu país por causa do terremoto.


Não é apenas o "PAC chinês" que dá visibilidade à letra C na diplomacia brasileira.

Os números são eloquentes: a troca de mercadorias entre os dois países aumentou 780% no período Lula, conforme o próprio presidente mencionou em sua saudação ao colega chinês.


Para comparação: o comércio com Índia e África do Sul apenas quadruplicou, no mesmo período.


O que o PAC e os demais atos assinados ontem entre os governos da China e do Brasil não mencionam, como é da praxe diplomática, são os problemas nas relações bilaterais, a serem negociados nos grupos criados ou consolidados ontem.


São problemas que podem se tornar universais, como a perspectiva de que se esteja formando uma "bolha" na China, visão compartilhada pela diplomacia brasileira e por muitos analistas.

Todo o mundo sentiu o que acontece quando "bolhas" grandes explodem.


Há outro problema que afeta outros países: a moeda chinesa supostamente desvalorizada demais, o que facilita exportações e gera desequilíbrios com os EUA e também com o Brasil.


Terceiro problema: a pauta comercial é formada, do lado brasileiro, por exportações de baixo valor agregado, basicamente commodities, detalhe mencionado de passagem no discurso de Lula.


"O Brasil não pode ser apenas uma grande mina ou uma grande fazenda", diz o empresário Eike Batista, aludindo ao fato de que as exportações estão muito concentradas em minério de ferro e itens agrícolas.


Receita de Eike: "Se a China for produzir 100 milhões de toneladas de aço, que 50 milhões sejam produzidos no Brasil".


O brilho da letra C fica facilitado não apenas pelos números espetaculares da China, mas também pela característica das duas outras cúpulas de ontem.

Tanto o Ibas como o Bric não têm característica normativa, como lembra o embaixador Roberto Jaguaribe, principal negociador dos encontros.


Ou seja, não produzem decisões de cumprimento obrigatório.

Uma relação bilateral, ao contrário, cria a moldura para negócios e para ações político-diplomáticas conjuntas.



Revisado em : 16/04/2010 14:07

   
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