|
'Podemos ajudar com o diálogo' diz Celso Amorim: ministro das Relações Exteriores (do Brasil) Denise Chrispim Marin, em O Estado de SP Chanceler diz que novas punições econômicas contra o Irã não trarão os resultados pretendidos pelo Ocidente
Brasil e França têm posições diferentes sobre a questão nuclear iraniana. Isso pode trazer prejuízo à relação bilateral?
Não, absolutamente. O Brasil não poderá impedir a aprovação das sanções. O Brasil não tem poder de veto nas votações do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil não tem papel decisivo nessa questão, mas pode ajudar, com o diálogo.
Há espaço para tentar uma negociação, mas isso depende de vontade política. A dificuldade está nos dois lados. Era preciso que o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) - Yukiya Amano - chamasse cada lado para verificar o que falta e negociar. Se falta algo sobre a quantidade ou o momento da entrega do urânio, essa questão tem de ser discutida. Sinceramente, não discutir não é uma boa opção.
O sr. tem conversas marcadas para tentar essa solução negociada? Nada específico. Se o assunto chegar ao Conselho de Segurança, nossa embaixadora nas Nações Unidas (Maria Luísa Viotti) vai se envolver. Tive contato com autoridades da França e da Turquia e conversas telefônicas com autoridades dos Estados Unidos e de outros países. Temos dado nossa opinião de que vale a pena tentar.
O senhor tem certeza de que um acordo pode ser alcançado?
Não posso responder que sim. Não sou ingênuo sobre as dificuldades de um acordo. Mas o outro caminho, o das sanções, foi perseguido nos casos do Iraque e do Irã sem que nada tivesse acontecido. Se as sanções econômicas contra o Irã se tornarem mais apertadas, quem vai sofrer são os setores mais frágeis dessa sociedade.
É uma coisa diferente quando as sanções recaem, na forma de embargo de envio de armas, a um país em guerra. No caso do Iraque, a taxa de mortalidade infantil mais que dobrou por causa das sanções. Se (o Conselho de Segurança) tivesse imposto as sanções e conseguido alcançar seus objetivos no Iraque, alguém, que não eu, poderia dizer que valeu a pena. E nem havia armas químicas no Iraque.
Se a resolução com sanções adicionais ao Irã for posta em votação no Conselho de Segurança, como o Brasil votará? Não vou falar sobre isso agora porque não sei como a resolução está escrita. Não sei o que vai acontecer até lá, não sei se haverá um fato que possa mudar nossa percepção. Hoje, a minha percepção é a de que seria possível o diálogo.
Mesmo com a decisão do Irã de iniciar o enriquecimento de urânio a 20% e de construir 10 novas usinas?
Quem tomou a iniciativa de propor a compra do combustível nuclear foi o Irã.
Provavelmente, porque deve reconhecer as dificuldades econômicas, industriais ou tecnológicas (que envolvem esse processo de enriquecimento). O Ocidente e a AIEA corretamente aproveitaram para fazer a proposta de troca de urânio iraniano por combustível nuclear. Os elementos básicos da troca foram aceitos. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, disse isso outro dia. Se há alguma dúvida, se há suspeita de que o Irã está tentando ganhar tempo, deve-se chamar os negociadores iranianos e verificar se é isso mesmo. A conclusão não pode ser tirada das impressões de um lado só. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Ahmadinejad aceita plano de enviar urânio ao exterior AP, Teerã O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, declarou ontem que o Irã está pronto para enviar seu urânio a um terceiro país para ser enriquecido, como proposto pela ONU, em uma grande mudança na posição de Teerã sobre a questão. Em entrevista à TV estatal, Ahmadinejad disse que o Irã não tem "nenhum problema" em enviar ao Ocidente seu urânio enriquecido a 3,5% para ser enriquecido a 20% e ser devolvido em forma de barras de combustível nuclear para seus reatores.
O Ocidente suspeita que o Irã esteja desenvolvendo um programa nuclear para fins militares e as barras de combustível nuclear dificultariam seu uso para a fabricação de uma bomba. O Irã diz que seu programa tem fins pacíficos. Funcionários iranianos vinham usando a mídia para criticar o plano e no mês passado, diplomatas ocidentais chegaram a dizer que Teerã havia rejeitado a proposta.
TROCA DE PRESOS Ahmadinejad também propôs ontem a troca de 11 iranianos que estão presos nos EUA por 3 montanhistas americanos que foram detidos no ano passado ao cruzar a fronteira do Iraque com o Irã.
Ahmadinejad disse à TV estatal que conversações estão sendo mantidas sobre a questão. "Estamos esperançosos de que todos os prisioneiros serão libertados", afirmou. Em dezembro o Irã divulgou uma lista de 11 pessoas que são mantidas nos EUA. A Casa Branca saudou a proposta sobre a troca de presos, mas negou que haja uma negociação em andamento.
Também disse que se o Irã está disposto a aceitar a oferta sobre urânio deve comunicar a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). -------------------------------------------------------------------------------------------------------------- "Proposta ainda não está esgotada", diz Amorim Folha de SP Horas antes das declarações do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, o chanceler brasileiro, Celso Amorim disse ontem em Paris que, para o governo brasileiro, a proposta pela qual o Irã se comprometeria a enviar urânio para enriquecimento no exterior em troca de combustível nuclear "ainda não está esgotada" e "é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada".
Em conferência sobre desarmamento nuclear, em Paris, o chanceler disse que a proposta endossada pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) é boa "não por resolver todas as diferenças, mas porque tem o potencial de destravar o muito necessário diálogo entre o Irã e o Ocidente".
No encontro do movimento pró-desarmamento intitulado "Global Zero", Amorim defendeu também ser "vital que nenhum país tenha negado o direito ao desenvolvimento da energia nuclear para fins civis, inclusive o enriquecimento [de urânio], desde que de acordo com as exigências da AIEA".
Embora não tenha, nesse caso, se referido especificamente ao Irã, o argumento é o utilizado pelo país para justificar seu contestado programa nuclear.
Amorim disse ainda que os esforços globais de não proliferação nuclear obterão sucesso somente se acompanhados de passos concretos por parte de potências atômicas rumo a um mundo sem armas nucleares.
A três meses da cúpula em Nova York que revisará o TNP (Tratado de Não Proliferação), o chanceler brasileiro deu a relação entre Brasil e Argentina como exemplo de cooperação para a promoção de confiança mútua. Desde os anos 1980, os países vizinhos mantêm agências bilaterais de checagem.
"O Brasil tem autoridade moral para reclamar o progresso [nas negociações]", disse Amorim, ressaltando também o fato de a Constituição brasileira ser uma das poucas que proíbem o uso da energia nuclear com finalidades outras que não civis.
Segundo o chanceler, depois de 40 anos em vigor, "todos os signatários não nucleares do TNP -com uma exceção [a Coreia do Norte]- cumpriram as suas promessas de não obter armas nucleares. Os cinco Estados nucleares, porém, ainda estão longe de corresponder".
Amorim recorreu ainda a um paralelo com a crise econômica global para afirmar que o mundo não pode esperar pela eclosão de uma crise de segurança da proporção daquela para aposentar o que qualificou de "verdades absolutas" nas negociações nucleares internacionais.
E elogiou o compromisso dos EUA e da Rússia de renovarem um acordo bilateral estabelecendo metas de desarmamento. Porém, advertiu para a corrida armamentista "qualitativa" em curso, em que potências diminuem os arsenais em troca de avanços tecnológicos. Revisado em : 10/02/2010 10:15
|