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Miriam Abramovay, coordenadora de Estudos e Políticas sobre a Juventude da Flacso Brasil, é uma das especialistas entrevistadas para o especial sobre violência publicado pelo UOL. “Há um aspecto teatral nos massacres, desde a escolha das roupas até as armas. É um exibicionismo que é parte da sociedade do espetáculo em que a gente vive”, afirma a socióloga.
O choque das pessoas, a angústia de quem aguarda notícias, a revolta e o desespero de amigos e familiares, o trauma de sobreviventes e o show midiático estavam ali como estiveram em massacres anteriores. Mas, para o psicanalista Christian Dunker, o ataque de Suzano (SP) é diferente dos outros que aconteceram no Brasil. “O último fator que parece ser novo é quando temos um discurso social autorizando que a forma de tratar conflitos não é pela palavra, mas pela violência e pela eliminação do outro”, afirma. Sua colega Fabiane Secches dá nomes. “Quando o discurso legitima o ódio e a intolerância, como é o caso de [Donald] Trump, de [Jair] Bolsonaro e de outros políticos e movimentos de extrema-direita, o pior de nós pode vir à tona. A violência se torna a linguagem vigente contra o outro e contra si”, completa.
Violência enquanto forma preferencial de comunicação é o que move fóruns de perfis anônimos como os frequentados pelo australiano Brenton Tarrant, 28, que na sexta-feira matou 50 pessoas em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia – ele citou o Brasil em seu manifesto de 73 páginas – e por Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, autores do massacre na escola Raul Brasil, em Suzano, que mataram oito pessoas e feriram 11. Em ambos os casos, o terror foi celebrado na deep web, onde grupos de extrema-direita se manifestam na internet sem serem rastreados.
O mesmo fórum acessado por Monteiro e Castro já foi investigado por ser plataforma para ameaças contra o ex-deputado federal Jean Wyllys, a antropóloga Débora Diniz e a blogueira feminista Lola Abramovich. Um de seus fundadores, Marcelo Valle Silveira Mello, foi condenado a 41 anos de prisão por associação criminosa, racismo, divulgação de imagens de pedofilia, incitação a crimes e terrorismo. Em um tempo no qual o debate político foi para as redes sociais e os governantes fizeram do Twitter seus palanques, as páginas da deep web trazem à tona milícias difamatórias que podem se tornar núcleos terroristas. Na psicanálise, há sempre uma busca pelo que desencadeou um fato em determinado momento.
Nesse aspecto, outra notícia da semana passada pode ter sido relevante. “Eu apostaria que a prisão dos [acusados de serem] assassinos de Marielle Franco tenha funcionado como desencadeante. São sujeitos parecidos com personagens de videogame: 117 armas encontradas, balaclavas, um crime praticado pela polícia, que permaneceu ilesa por um ano. Não sei dizer o que teria passado na cabeça dos garotos, mas o chute final do processo me parece que veio daí”, afirma Dunker. No divã, todos os fatos se unem e nada é aleatório.
A guerra imaginária
Um dos fatores que chama a atenção nos massacres coletivos com armas de fogo, tanto no Brasil quanto nos EUA – onde apenas em 2019 já se contabiliza 58 tiroteios com 185 mortes -, é que eles são praticados por homens. A população jovem masculina é tanto a que mais mata quanto a que mais morre. Causas biológicas já entraram no debate, como o papel da testosterona no comportamento destrutivo. Mas as razões culturais são mais claras, como competitividade, necessidade de dominar o outro e a agressividade. “A masculinidade é transmitida em nossa cultura como antítese da vulnerabilidade. É pretensamente fálica, potente, imune a qualquer ameaça. Daí os meninos, em sua formação como homens, vão se deparando com as contingências da vida e os efeitos das relações: rejeição, tristeza, decepção, fraqueza. A noção de masculinidade a que foram sujeitados não comporta esses sentimentos, mas eles estão ali, pulsando, pressionando por um escape. E a via escolhida pode ser terrivelmente agressiva”, afirma a psicanalista Amanda Mont’Alvão Veloso, especialista em linguagem e adolescentes.
Para Dunker, a formação da masculinidade na sociedade brasileira é associada à virilidade bélica. “Espera-se que a atitude de um homem diante do conflito seja recorrer a meios violentos. A violência pode ter um valor erótico. Isso torna a coisa mais complicada, mais complexa, de tal maneira que a violência adquire um sentido de autolegitimação”, afirma.
Psicanalista autor de vários trabalhos sobre o cenário político dos últimos tempos, o professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Tales Ab’Sáber destaca a formação de uma guerra fantasiosa na cabeça desses jovens. “O campo da violência é predominantemente masculino. Isso é uma questão mais profunda dos problemas envolvendo gênero e civilização. O que acontece nesses casos é a produção de uma guerra. É uma cena de guerra sem guerra”, afirma. Da imaginação para as ações reais, como fazer ameaças e planejar ataques, é um passo. Ao que parece, cada vez menor.
O ódio na rede
Os homens também são muitos atuantes nos chans, cujas versões na deep web são dedicadas principalmente ao discurso de ódio. Antes do massacre, Guilherme e Luiz agradeceram pelos “conselhos e orientações” do grupo que participavam. “São garotos com uma questão muito importante ligada a uma sensação de frustração, de exclusão e de raiva que, pelo que as investigações vêm mostrando, se articulam na deep web, [ambiente] com esses mesmos tipos de frustração e apologia à violência, e que transformam essa raiva em ação”, analisa Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência, da USP (Universidade de São Paulo).
Manso aponta o isolamento desses jovens se autopromovendo em suas bolhas virtuais, vê a internet como parte desse jogo, mas não culpa a tecnologia. A questão é sempre o uso da ferramenta, como ressalta a socióloga Miriam Abramovay, especialista sobre violência nas escolas e coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais). “Os meninos já têm algum tipo de fator de risco para viver em função de planejar um massacre, algo que ninguém percebeu”, afirma.
Para Tales Ab’Sáber, existem duas facetas da era digital nesse tipo de crime: a polarização nas redes sociais e a cultura de ódio nos fóruns da deep web. “Esse antro das comunicações rápidas que se acreditava que produziria um espaço de democracia, produziu um espaço de fascismo e destruição. Tem levado ao poder homens comprometidos com a violência. É um problema político de grande porte essa rede do ódio.” Os fóruns da deep web carregam ainda mais uma preocupação: abrem possibilidade para um anonimato que, segundo Dunker, deveria ser mais controlado. “O anonimato é o indutor da patologia. Devia ser proibido o uso em qualquer rede social com nomes que não fossem os nomes próprios. Do ponto de vista psíquico, quando você não tem nada ligado ao seu nome e não localiza o autor, isso desperta o pior das pessoas, junto com o comportamento de massa”, afirma. Passar incógnito no planejamento e buscar a notoriedade depois da ação. Essa fórmula de “fama” rápida parece mais contagiosa do que o ódio que a motivou.
A estética da violência
Há um aspecto teatral nos massacres, desde a escolha das roupas até as armas. “É um exibicionismo que é parte da sociedade do espetáculo que a gente vive”, afirma Miriam Abramovay. Para Dunker, “é um tipo de performance, onde os agressores não estavam atrás de alguém específico, mas de fazer uma cena”, analisa. O psicanalista não vê uma mensagem específica dos atiradores. “O ato deixa apenas a mensagem de que os personagens serão lembrados. É um tipo muito simples e elementar de apelo por reconhecimento que aparece com o sentimento de irrelevância e isolamento”, completa. A tragédia de Columbine, nos EUA, em 1999, é a principal inspiração para as adaptações brasileiras. “Os EUA têm uma longa tradição desse tipo de evento espetacular que choca a vida social. Depois da Guerra do Vietnã, começaram esses ataques autodestrutivos e gratuitos. Isso migrou para os adolescentes nas escolas. É quase parte da cultura da violência norte-americana”, afirma Ab’Sáber. “Agora, tudo indica que o Brasil vai numa via de identificação com os EUA em aspectos do que há de pior, que é ligado a essa hipercultura da violência e das armas. Parece que o país está achando graça em colar no que tem de pior naquele mundo”, completa.
Um dia antes do atentado em Suzano, no fórum que os atiradores frequentavam, foi postada a tradução da canção “Pumped Up Kicks”, da banda Foster The People. Após o massacre, outro chan colocou a música tocando ininterruptamente, como forma de comemoração. A banda sempre se posicionou contra e explicou que música é um hino anti-armas e que tenta mostrar a psicologia de um jovem que comete massacres do tipo. O baixista do grupo, inclusive, é primo de um sobrevivente do atentado de Columbine. A canção, no entanto, foi ressignificada por grupos de ódios, que a utilizam justamente como um ode a tais massacres e simboliza, de forma estética, a comemoração por crimes.
Para Pedro Consorte, especialista em comunicação não-violenta, a sociedade brasileira está imersa na cultura do chamado “american way of life”, que, segundo ele, culmina no desenvolvimento de estados solitários, relações individualistas e competitivas. “Estamos desabilitados a lidar com divergências e com diversidade, pois o que existe é majoritariamente o estímulo à intolerância com o que é diferente. Criamos uma bomba-relógio”, afirma. Ao contrário do Brasil, há outros países que desarmaram suas bombas – ou já manifestaram a intenção de fazê-lo. Na Nova Zelândia, após o massacre de sexta-feira (15), a decisão foi de endurecer a lei sobre armas. “Nossas leis vão mudar”, afirmou Jacinda Ardern, primeira-ministra. No Reino Unido, após um ataque a uma escola escocesa em 1997 que deixou 16 crianças mortas, foi aprovada a proposta de proibição total de posse de pistolas com calibre superior a 22. Meses depois, a proibição passou a valer para todas as pistolas.
Chacina versão digital
Muito do conteúdo que circula nos fóruns da deep web tem certo teor conspiratório e mensagens antissistema. “É um fenômeno social novo e que tem uma novidade que vai além da segurança pública”, afirma Manso. Para ele, há ecos dessa insatisfação no discurso que monopolizou a campanha eleitoral à presidência em 2018. “O presidente assume o poder, mas ele continua com o discurso antissistêmico, não percebe que ele agora é o sistema. Ele ainda mantém essa postura adolescente, conspiratória, como se participasse de um chan da internet”, completa.
Manso afirma que o discurso muitas vezes truculento, endereçado a inimigos de outro campo político, repetidos não apenas por Bolsonaro, mas por outros candidatos, é a prova de que a mensagem bélica é cíclica. “Ele (Bolsonaro) é uma consequência disso. Ele é algo que surge nesse ambiente de frustração, de mal estar. Depois de períodos de crise, você tem uma masculinidade mal resolvida, perdida e sem espaço, porque as instituições estão se transformando. Você tem um momento de transição social importante que as pessoas estão se sentindo vulneráveis, e o Bolsonaro não deixa de ser uma consequência disso”, afirma o pesquisador.
Casos como o massacre na escola em Suzano parecem ser um efeito colateral desse espírito do tempo. “A predisposição ao ataque e a violência é um pré-requisito. A estética da guerra está sendo colocada como a única solução para o Brasil”, afirma Ivan Marques, do Instituto Sou da Paz, lembrando que um dos assassinos de Suzano usou uma máscara de caveira bastante parecida com a usada por um soldado durante a intervenção federal do Rio de Janeiro. “Não podemos esquecer que essa guerra vai ser travada nas nossas casas, nas nossas ruas, nas nossas escolas. Em uma guerra, ninguém sai ileso. Todos são vítimas”, completa.
Culto às armas
A reverência do governo brasileiro aos EUA se reproduz inclusive nesses momentos de tragédia. Depois do massacre mais mortal da América, em 2018, com 17 mortos em um colégio de Parkland, na Flórida, Trump disse que a solução seria armar professores. Após a matança de Suzano, o senador Major Olimpio (PSL-SP) anunciou o mesmo parecer. Pais e professores criticaram a solução. Fazer “justiça pelas próprias mãos” é a lógica por trás das frases dos políticos, assim como está também na fantasia dos atiradores. “Do ponto de vista da segurança pública, tem essa descrença de que o Estado pode resolver os problemas da violência. Logo, há um incentivo para que as pessoas individualmente comecem a tomar suas próprias providências”, afirma Ivan Marques, do Instituto Sou da Paz.
Essa postura se reflete na corrida armamentista, que tem entrado na pauta dos assuntos prioritários no Brasil, com base no discurso de defesa pessoal. Esse interesse não é novo, mas tem crescido com rapidez, antes mesmo do presidente Jair Bolsonaro decretar a flexibilização de requisitos para a posse de armas.
Segundo o próprio instituto, dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que, no período de 2008 a 2017, a quantidade de armas em circulação no país saltou de 6.260 para 33.021. Esse resultado não é aleatório. “Nós conseguimos observar comportamentos da sociedade brasileira que indicam um aumento por essa busca para fazer justiça com as próprias mãos ou, no mínimo, uma necessidade de autoproteção por meio de violência”, explica Marques.
“Está se perguntando muito o que o episódio em Suzano tem a ver com as novas políticas que o governo está querendo colocar em prática. Tem tudo a ver”, afirma o jurista e professor Wálter Maierovitch. Ele ressalta que o Brasil não apenas está mergulhado como também exporta a própria violência. O país é o terceiro que mais vende armas, atrás apenas dos Estados Unidos e da Rússia. “Essa mensagem leva a um aumento de circulação de armas de fogo na sociedade brasileira que, como efeito colateral, gera esse tipo de situação vista em Suzano”, afirma Maierovitch. O estrago de episódios como o da última quarta-feira só não é maior por conta dessa dificuldade em conseguir acesso a armas.
Diferentemente dos Estados Unidos, onde a venda de armas de fogo não encontra travas e pode ser feita pela internet, a legislação aqui, apesar da flexibilização, ainda é mais rígida. No entanto, o arsenal encontrado pela polícia continha armas brancas (uma machadinha, um machado, um arco e flecha e uma besta, adquiridos no site Mercado Livre) vendidas livremente, um revólver calibre 38 antigo, de fabricação nacional, e jet loaders (objeto para recarregar a arma), cuja venda também é regulamentada.
“Não é só a flexibilização do porte que preocupa”, afirma Paes Manso. “É esse discurso paranoico que está na classe política atual, de discursos conspiratórios, de categorização de inimigos, como se a gente vivesse sob uma ameaça do fim da cultura judaico-ocidental, a ser tomada pelo marxismo cultural, esses tipos de coisa. Esse pacote é o que preocupa mais”, argumenta o pesquisador. Os psicanalistas enxergam um comportamento doentio no atual culto às armas. “É uma conversa que tem efeitos patogênicos na população. É ridículo facilitar o acesso. Isso não está dando certo nos EUA, tem milhares de adolescentes cometendo crimes lá. E a gente querendo armar a população”, critica Dunke.
“Essa mensagem de potência é totalmente baseada no imaginário e completamente desconectada dos efeitos reais, que são o imprevisto, o erro, o despreparo, as sequelas. Pensar que elas serão utilizadas para defesa e não para o fomento do ataque é de uma ingenuidade irresponsável, pois elas vão municiar pessoas que não vão hesitar na hora de atirar. Que não vão fazer ponderações. O armamento é tratado como política pública onde devia haver promoção de segurança coletiva e proteção aos cidadãos – estas deveriam ser as premissas”, afirma Mant’Alvão Veloso.
O alvo simbólico
Uma pesquisa feita em 2013 em conjunto entre a Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e a Universidade do Texas (EUA) mostrou 26,8% dos estudantes como sádicos, por sentirem prazer com o sofrimento alheio, seja o outro um inseto ou um ser humano. O levantamento escancarou um sadismo quase cotidiano, que na internet se traduz em cyberbullying, trollagem e comentários ameaçadores. “De tão erodida pelo advento das redes sociais, não podemos mais falar em sociedade civil. A polarização se tornou um veneno. As redes estão polarizando a sociedade. Essas empresas de tecnologia não estão nem aí com a saúde da sociedade civil”, cravou Niall Fergunson, professor de história da Universidade de Stanford (EUA). Com foco nos conteúdos emotivos, moralistas e obscenos, o engajamento na web virou estreiteza de visão, e o alcance das mensagens digitais se transformou em veículo ideal para o ódio. Nesse cenário, o alvo mais fácil é a escola, local justamente que serviria de contraponto, debate, abertura e aprendizagem. Para Dunker, o local escolhido por atiradores tem um peso simbólico. “Isso fala do lugar social da escola no Brasil. Apesar da desconfiança da qualidade, as escolas ainda são um espaço de cuidado, de reconhecimento pelo sentido simbólico que ela tem para as populações menos favorecidas. É um ataque contra o que a escola representa. Me parece grave e convergente com o discurso desqualificar as pessoas que trabalham com o ensino”, afirma.
A desqualificação dos professores e do sistema de ensino passa também pela tentativa de militarização da educação. “Tem projetos que entendem que a escola deve aumentar o nível de segurança, colocar PMs e detector de metais, erguer muros. É um discurso que autoriza a violência como prática e como método. Os conflitos educacionais são encarados de forma similar aos conflitos militares, que se resolvem pela força, pela arma”, analisa Dunker. “A escola teria que ser diferente, mais receptiva, mais agregadora e mais conectada com a cultura juvenil”, afirma a socióloga Miriam Abramovay. No caso de atiradores, ela opina que algum incidente na escola fez com que os jovens a abandonassem. “A escola é a única instituição social que eles frequentaram. Isso é gravíssimo. O que eles quiseram mostrar é que eles estavam aí e tinham o poder e virilidade para matar quem quiser aleatoriamente”, completa.
Violência atrás dos muros
Para o sociólogo Tulio Kahn, os massacres em escolas são “a ponta do iceberg”. Consultor da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo entre 2003 e 2011, ele afirma que a violência sempre esteve presente em ambientes escolares, inclusive com relatos de alunos que levavam armas de fogo para a sala de aula e casos de mortes que aconteciam de forma esporádica e não envolviam mais que duas pessoas. “Sem as características do ‘mass shooting’ (tiroteios em massa, em tradução livre, como ficaram conhecidos os atentados nos EUA), às vezes passava despercebido, mas não é de todo incomum”, diz. “As escolas estão sujeitas a uma série de violências no cotidiano, de furto, de bullying, de invasão, de depredação. Chama atenção pela quantidade de mortos, uma coisa aparentemente sem sentido, mas não deixam de lado que essa é uma realidade das escolas. Há tráfico de drogas, roubos, tipos de lesões menos sérias, abuso”, afirma o sociólogo.
De acordo com o psicólogo Daniel Fatori, 80% das crianças e adolescentes com transtornos mentais não recebem tratamento médico nem psicológico. Fatori realizou um levantamento com 2.511 crianças com idades entre 6 e 12 anos de escolas públicas de São Paulo e Porto Alegre. O estudo foi realizado pelo Instituto de Psiquiatria da USP, pela Unifesp e pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Para ele, nem a escola nem o sistema de saúde público estão preparados para lidar com o problema. “Existem algumas iniciativas mas que não viram políticas públicas”, afirma. “Quanto mais cedo se detecta um problema de saúde mental e mais cedo se trata, o prognóstico é melhor. Não detectar e não tratar esses problemas torna esses jovens adultos com transtornos mentais”, conclui.
Razões e soluções
A pergunta que fica é como tentar prevenir outros casos como o de Suzano. Se as causas são muitas, as soluções também envolvem muitos fatores. Da sua área, o jurista Walter Maierovitch observa: “Nessa hora, está todo mundo dizendo qual é a fórmula. A discussão está com pouca profundidade. Eu diria que quando se fica no bullying, nos videogames, fica uma coisa rasa. Tudo fica no chute”, diz. Como estabelecer essas regras preventivas no Estatuto da Criança e do Adolescente? “Há muito a se mapear. Acho que precisamos de um observatório nacional, em parcerias com as universidades, para a gente ter mecanismo preventivos adequados. Que políticas públicas que a gente tem? É um nada. É um cenário de terra arrasada”, afirma o jurista. Para Miriam Abramovay, um dos caminhos para prevenir novos ataques é prestar atenção no ambiente das escolas. “A grande preocupação dos últimos anos tem sido o ensino médio e o fundamental 2, porque é onde tem evasão. Eles não aguentam a escola, e a escola também não aguenta. Nós tínhamos que contar com uma política de convivência escolar”, afirma Abramovay.
Para Ivan Marques, do Sou da Paz, a solução é ampliar o olhar sobre segurança pública. “O Brasil entende a segurança pública como polícia ostensiva, como repressão, essa lógica da guerra”, diz. “Mas existem inúmeros estudos e casos de boas práticas em lugares que tinham alto indicadores de violência, e que mostram que a prevenção é a melhor política pública, o melhor investimento, mas que só dá retorno no médio e longo prazo”, completa. Para o ativista, é preciso formar geração de professores e funcionários públicos atentos a questões que podem escalonar potencialmente para uma situação de violência. Além de integrar forças entre a educação, a segurança e a saúde para perceber e lidar com comportamentos sociais inadequados, mas ainda em estágio inicial. O Sou da Paz aplicou essa metodologia em escolas em Brasilândia, na zona norte de São Paulo, região onde mais se encaminha jovens para a Fundação Casa, em 2015 e 2016. O desafio foi integrar as políticas de educação com a cultura do esporte, a geração de emprego, saúde, assistência social e a polícia, fazendo da escola um núcleo de combate à violência e com um cuidado maior para que alunos que já foram infratores não terem reincidência. Em algumas escolas, houve 80% de redução de violência. “Isso mostrou que a comunidade em torno da escola tem força para conseguir reduzir a violência.”.
“A escola é um excelente exemplo e pode ser o berço desse tipo de ação. Não é armando o professor ou colocando detector de metal na porta impedindo o acesso que você transforma aquela comunidade escolar em um ambiente seguro. Você precisa ter atividades integradoras entre alunos, professores, pais e pessoas que moram naquela comunidade”, afirma Marques.