“Não se trata de aumentar a participação das mulheres rurais, mas de empoderá-las”

A socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas da Flacso Brasil participou de conferência no Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), em San José, na Costa Rica. 

Como demonstração da importância dada pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) aos temas de gênero e juventude para um genuíno avanço desenvolvimento do setor agropecuário, a entidade pôs em marcha um ciclo de palestras para sensibilizar, analisar e discutir aspectos relativos a estes tópicos.

A primeira palestra, “Gênero e mulher rural”, foi apresentada pela reconhecida socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da área de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), no Brasil.

A especialista iniciou sua dissertação com um chamado veemente para a diferenciação, com clareza, dos conceitos de ‘sexo’ e de ‘gênero’. “Gênero e sexo não se confundem. O gênero foi estabelecido a partir da oposição à categoria sexo, que é um dado meramente biológico. O gênero é construído socialmente, de forma continua, a partir dessa diferença sexual”, enfatizou ela.

Segundo Abramovay, as mulheres rurais não têm o mesmo acesso a bens e serviços produtivos que os homens, apesar de possuírem amplos conhecimentos do setor agropecuário. Dados do Observatório de Gênero da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) mostram que 38% das mulheres rurais não têm acesso a renda própria, enquanto apenas 14% dos homens rurais estão na mesma condição. Além disso, somente 30% delas são proprietárias de terra.

De acordo com a socióloga, as frases “ela ajuda nas tarefas do campo” ou “ela não tem responsabilidades econômicas” refletem a generalizada ausência de reconhecimento aos diversos tipos de trabalho realizados pelas mulheres nas zonas rurais e manifestam uma parte constituinte da dinâmica das relações de gênero.

O certo é que a mulher rural não cumpre somente um papel fundamental no lar, mas também tem peso elevado nas tarefas produtivas. Delas depende a segurança alimentar de numerosos lares rurais na América Central e no México, segundo a Cepal. Além disso, elas são responsáveis por mais da metade da produção de alimentos no mundo.

Por isso, Abramovay reiterou que o enfoque de gênero não consiste simplesmente em acrescentar um componente feminino ou de igualdade de gênero a uma atividade ou projeto nem de aumentar a participação das mulheres, mas de incorporar a experiência, o conhecimento, os interesses e as necessidades das mulheres à execução desse projeto.

 “Não podemos dizer que existe um enfoque de gênero se temos um projeto só para mulheres. Não se trata de aumentar a participação das mulheres. Trata-se de empoderá-las. É assim que se pode transformar as estruturas sociais e institucionais desiguais em estruturas igualitárias e  justas para mulheres e homens”, afirmou

Nascida em São Paulo, Brasil, Abramovay foi coordenadora de pesquisas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e consultora do Banco Mundial  e do Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Além disso, é membro da Rede Ibero-americana de Infância e Juventude do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clasco).

O diretor-geral do IICA, Manuel Otero, participou da conversa e reiterou o compromiso do Instituto com essa agenda. “Gênero e juventude são temas transversais aos eixos estratégicos do nosso Plano de Médio Prazo 2018-2022. Devemos passar dos ditos aos fatos e, para isso, começado de dentro para fora”, afirmou.