A cada três anos, Brasil iguala soma histórica de mortes por terrorismo

O Brasil registra quase 60 mil assassinatos por ano, mais do que o dobro das mortes anuais na Síria. São necessários apenas três anos para alcançar a soma de corpos de todos os atentados terroristas da história

Por Tiago Cordeiro, Gazeta do Povo

O atentado de 11 de setembro equivale a cerca de 10 dias de homicídios no Brasil | STRSTR

                                                         O atentado de 11 de setembro equivale a cerca de 10 dias de homicídios no Brasil STRSTR

Pense num atentado terrorista, qualquer um. O ataque ao World Trade Center, em Nova York, em 2001. A explosão de um Boeing 747 no ar, no caminho do Canadá para a Índia, em 1985. O atentado durante o show de música pop em Manchester, na Inglaterra, em 2017. O sequestro de uma escola inteira em Beslan, em 2004. Os quatro atentados simultâneos com bombas no Iraque, em 2007. A detonação de bombas dentro de uma redação de jornal em Trieste, na Itália, em 1920.

Some todos os mortos, de cada ataque já realizado na história, incluindo os corpos dos próprios terroristas. E você tem apenas três anos de homicídios no Brasil. O total de vítimas da soma de todos os atentados já registrados até hoje está em 180 mil pessoas – sendo 140 mil delas a partir do ano 2000. No Brasil, todos os anos, acontecem em torno de 59 mil homicídios.

Os métodos dos terroristas são muito variados. Eles podem sair atirando, ou esfaqueando. Roubar caminhões e jogá-los contra pedestres indefesos. Sequestrar aviões e lança-los contra prédios. Podem detonar granadas. Encher vans de explosivos. Detonar bombas presas aos próprios corpos. Tudo com o objetivo de atingir vítimas civis, inocentes, e assim provocar medo. No Brasil, as mortes são mais banais: armas de fogo são usadas em dois terços dos assassinatos, que normalmente acontecem em consequência de desentendimentos pessoais.

Registros recentes

Terrorismo é uma atividade recente na história. A contagem de corpos começou no século 19, quando surgiram os primeiros registros de organizações civis dedicadas a matar outras pessoas em nome de uma ideologia – normalmente política ou religiosa. Os primeiros casos foram registrados na Irlanda, a partir da década de 1850, onde os guerrilheiros nacionalistas agiam contra edifícios públicos usando explosivos.

É bem provável que ataques terroristas tenham acontecido antes, por exemplo na Jerusalém ocupada por romanos no século 1, mas não eram a regra. Mais comum mesmo era os governos entrarem em guerras tradicionais, usando seus exércitos treinados para isso. Grupos de civis, pegando em armas, para tentar mudar uma situação específica e usando a morte de grandes quantidades de inocentes como argumento, são uma invenção moderna.

“A definição de terrorismo é relativamente recente. Surgiu durante a Revolução Francesa e significava ‘um regime de terror’. Neste primeiro momento, no fim do século 18, representava o terror que um estado cometia contra seus próprios cidadãos. Rapidamente, mudou de sentido, e passou a associar o terrorismo com organizações civis clandestinas”, diz Ronen Steinberg, professor de história moderna da Universidade Estadual de Michigan. É dele a estimativa a respeito do total de vítimas do terror, com base numa ampliação dos registros de incidentes e vítimas realizado pelo Global Terrorism Database, que reúne informações dos últimos 45 anos.

Já o assassinato entre seres humanos é muito mais antigo. Algumas de suas causas são conhecidas. No Brasil, como no resto do mundo, em geral os assassinos e os assassinados são homens, jovens, moradores de periferia, com baixa escolaridade. Em época de crise econômica, a violência aumenta.

“Na medida em que aumenta o desemprego, a crise incentiva a criminalidade”, diz o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da área de estudos sobre a violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO). “Vivemos um quadro de guerra. São números muito pesados, e não temos nenhum indicativo de que eles possam diminuir nos próximos anos.”

Os dados mais recentes fazem referência a 2015 e constam do Atlas da Violência 2017, publicado em parceria pelo Instituto de Pesquisa Econômica aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FPSP): foram 59.080 homicídios naquele ano, uma média de 28,9 para cada 100 mil habitantes, um aumento de 10,6% em relação a 2005. Em números absolutos, nenhum país do mundo supera nossa marca. Respondemos por 13% de todos os homicídios que acontecem no mundo inteiro.

Mais do que a Síria

Na taxa de mortes em relação à população, somos o 9º país mais violento do mundo. Ganhamos de todas as nações da África e também do Oriente Médio. Nossos mais de 59 mil assassinatos significam 161 mortes todos os dias. É mais do que o dobro do registrado, por exemplo, na Síria, que desde 2011 enfrenta uma guerra civil. Morreram ali, em 2016, 27809 pessoas, ou 76 por dia. Somados quatro anos em sequência, 2011 a 2015, também ganhamos dos sírios: 279 mil mortes violentas no Brasil, contra 256 mil mortes na Síria.

Também ganhamos do Iraque: morreram assassinados, em 2016, 6.878 civis, o equivalente a 18,4 mortes por 100 mil cidadãos. O Iraque precisa somar todas as mortes violentes de civis, de 2008 a 2016, para chegar a 54 mil corpos – pouco menos do que acumulamos em um ano.

Apesar de o número de mortes se manter estável, alguns estados conseguiram melhorar seus indicadores nos últimos anos, caso de Espírito Santo e Paraná. Já no Nordeste a situação é dramática. Em Rio Grande do Norte, por exemplo, são 44,9 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Em Sergipe, 58,1 mortes por 100 mil pessoas.

Na lista das 50 cidades mais violentas do planeta, 19 são brasileiras, 11 delas do Nordeste, sendo Natal a capital onde mais acontecem assassinatos no Brasil, proporcionalmente à população. Curitiba está em 49º lugar desse ranking, com estimados 1.148 homicídios em 2016.

Acesso fácil a armas

Entre os jovens, a guerra é ainda mais violenta: de todos os brasileiros de 15 a 29 anos que morreram no Brasil em 2015, 47,8% foram assassinados. Em Alagoas, por exemplo, os homens jovens vivem sob um regime de 233 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. A violência é também um fenômeno concentrado: mais de metade dos incidentes foram registrados em 111 municípios, ou 2% do total de cidades e 19,2% da população do país. E 71% das vítimas são negras.

Atlas da Violência do ano anterior também fez projeções sobre os índices de violência caso o Estatuto do Desarmamento não tivesse sido sancionado, em 2003. Concluiu que armas de fogo estiveram envolvidas em 76,1% dos assassinatos cometidos em 2014 – a média na Europa é de 21% de participação de armas de fogo em homicídios. E chegou a um número: sem a redução do acesso a armas de fogo promovida pelo Estatuto, o número de homicídios entre 2011 e 2013 seria 41% mais alto. No lugar dos 55.133 incidentes por ano, em média, no período, teriam sido 77.889.

“A cada 1% a mais de arma de fogo numa cidade, a taxa de homicídio cresce 2%”, diz Daniel Cerqueira, autor do Atlas da Violência e técnico de planejamento e pesquisa do Ipea. “As pessoas costumam pensar que criminosos são os que mais cometem homicídios, quando na verdade o latrocínio participa por no máximo 4% do total de assassinatos. Mata-se muito mais em relações interpessoais, briga de bar, briga em casa, briga de trânsito”.

Mas por que, afinal de contas, mata-se tanto no Brasil? “Os maiores fatores de risco são o acesso a armas e a desigualdade social. Os homicídios são realizados em poucos bairros violentos, dentro de poucas cidades. São regiões cheias de jovens sem estudo nem perspectivas. Quando eles morrem, a maior parte das pessoas pensa: ‘devia estar envolvido em algum crime, e bandido bom é bandido morto’. As pessoas racionalizam estas mortes e não se importam mais com elas”.